terça-feira, 22 de maio de 2007

Ecobesteirol

Ecobesteirol
por Michèle Sato


Uma das funções da academia tem ecos profundos na produção científica. Avaliados anualmente, os docentes de uma universidade federal envolvidos em programas de pós-graduação buscam dar visibilidade às suas pesquisas, divulgando seus estudos e evitando alardes desnecessários, já que o sensacionalismo não tem fundamento epistemológico. Uma outra função acadêmica, porém de menor impacto, é publicar pequenos textos de forma informal para atender a demanda comunicacional que a era contemporânea exige. Infelizmente, porém, o currículo Lattes não é bem avaliado com meras matérias em jornais.
O sistema de avaliação é perverso e lamentavelmente as fogueiras de vaidades ardem para esmiuçar a pequeneza da alma numa única verdade absoluta. É comum, assim, que recém-mestres ou doutores escondam suas fragilidades atrás de suas titulações, lançando palavras sensacionalistas em jornais de comunicação de massa, ou nestes boletins virtuais, já que a competência em publicar em periódicos científicos está longe de ser alcançada. Mais triste do que este cenário é, contudo, quando estudantes formados por nós mesmos divulgam matérias em jornais comuns desmerecendo saberes significativos construídos para além dos arrogantes muros acadêmicos. Desmerecem significados polissêmicos e julgam-se donos da verdade, menosprezando as lutas ecologistas, feministas, indígenas, negras ou de gênero, entre outros movimentos sociais. Não é indevido, portanto, que a fama da universidade seja repleta de arrogância e hierarquia.
Um texto intitulado "Ecobesteirol na Bacia do Alto Paraguai" foi circulado nos jornais de massa, num enredo condizente ao veículo de comunicação, já que a linguagem está longe de ser considerada científica. Estranhamente, entretanto, revela um corte cronológico desde 1982, omitindo o processo histórico do grito ambientalista que certamente não se inicia num programa de álcool. Não retiro a possibilidade que o equívoco da raiz possa estar na própria instituição formadora que, atada pelas neuroses das atividades cotidianas, não consegue proporcionar uma construção ética mais adequada aos apelos de uma era marcada pelas desigualdades sociais. O projeto neoliberal prevalece, favorecendo as competições numa plataforma mercadológica da defesa cega do capital a todo custo. Para isso, vale qualquer argumento que possa revelar a corrida pelo pote de ouro no insensato status do "ter" em detrimento do "ser". É mais provável, assim, que os interesses políticos ou ideológicos sobrepujem o conhecimento ético. O texto em questão revela informações elementares, lançadas quase como um grito sem nexo, e nem valeria a pena pautar todos os itens desconexos de um vasto conhecimento contemporâneo, não apenas lançados em resoluções de órgãos colegiados, mas essencialmente em relatórios científicos recentes, periódicos acadêmicos ou saberes mais eruditos. É provável que a maioria destes textos seja publicada na língua anglo-saxônica, dificultando o acesso das páginas internacionais ou dos famosos "papers" que infelizmente a ciência ainda está dependente. Disso resulta um desfile de "besteirol" acumulado, como se os ecologistas fossem apenas os hippies da década de 60, ainda no imaginário herdado do modelo neoliberal de olhar o mundo e se situar nele.
Surpresamente, ao conhecer a autoria, percebo o quanto ainda temos que melhorar a universidade. A academia não se vale apenas pelas suas teorias de gabinete, e nem pelo ímpeto insensato do pragmatismo. Há uma outra dimensão axiológica inscrita na ética e que clama por valores responsáveis em produzir nossos conhecimentos a favor da vida e não apenas de interesses econômicos de uma minoria.
Um recente debate sobre o silêncio dos intelectuais gerou mal-estar no meio universitário. Uma grande pensadora brasileira pondera que não estamos em silêncio porque queremos, mas não sabemos propor algo novo. Ao invés de meras repetições de discursos de presidentes dos Estados Unidos da América, os intelectuais buscam criar o inédito. Para isso, recomenda a filósofa Marilena Chauí, é preciso que os intelectuais saiam de sua cegueira de titulações e exerçam a militância das ruas. O nível de compreensão pode acelerar grandiosamente, desde que imbuídos pela ética, na transcendência de teorias e práticas, simples proposições e desabafos da direita e possam ser desmascarados para que a sociedade humana seja socialmente justa, ecologicamente responsável e eticamente inclusiva.
Ainda que eu tenha dúvidas em relação ao conhecimento do autor sobre o enredo epistemológico, vem como sobre o significado político de "ecologista", o texto me toca diretamente, pois sou cuidadosa em aliar minha vida profissional à cidadania. Em outras palavras, além de pesquisadora na área da Educação Ambiental, sou também ecologista. Assumindo minha identidade, estou bastante saturada em ler ou ouvir as mesmas falácias repetitivas de que somos "fundamentalistas da caverna" e somos contrários ao desenvolvimento econômico. Chega a ser ingênuo pautar a economia segregada das dimensões ambientais num simples discurso que qualquer estudante de ensino médio consegue reproduzir, copiado do neoliberal George W. Bush, também ao recusar assinar o Protocolo de Quioto. É preciso um pouco mais do que reprodução de discursos para se apresentar publicamente a favor do capital. Mas fecho este texto por aqui, porque responder a uma besteira tamanha pode soar como outra besteira semelhante. Mas serve como desabafo, para que os veículos de comunicação de massa não sejam tão repetitivos. Para além de cópias de discursos tão conhecidos, novos debates devem ser fomentados à formação da consciência ética e da chamada "formação de opinião". Se o quadro persistir, até considerando o direito pela liberdade de expressão, permito-me sugerir uma seção, talvez ao lado da história de quadrinhos, para que a leitora ou o leitor possa escolher se deseja se divertir, com um setor intitulado: "Muito prazer, meu nome é Ecobesteirol, sou o clone mato-grossense de George W. Bush".



* MICHÈLE SATO é licenciada em biologia, com mestrado em filosofia, doutorado em ciências e desenvolvendo o pós-doutorado em educação pela Université du Québec à Montreal, Canadá. É professora do Instituto de Educação e líder do Grupo Pesquisador em Educação Ambiental da UFMT. É facilitadora das redes de Educação Ambiental nos cenários internacional (Redeluso), nacional (Rebea) e local (Remtea).


Fonte:
Jornal Diario de Cuiabá, 22 de Maio de 2007.

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