Continuando ESSA ESTÓRIA AQUI...
Por todo esse tempo a sua vida a esperava. Só ela, ainda não sabia.
E pela rua, fitava aos outros como se fossem eles os responsáveis por tudo que lhe acontecera antes. Antes do belo vestido; do banho reconfortante; quando ainda dividia a solidão com a garrafa de vinho.
Mas a vida era dela. Só a ela interessava.
Na rua os respingos lhe tocavam a face; mas ela não se importava com a chuva. Era por demais fraca para molhá-la e suficientemente fria para lembrá-la que estava viva; que a borboleta abandonara a crisálida e voava livre e solta por entre os jardins de concreto, cinzentos como o céu chuvoso.
Estava decidida. Nada mudaria essa sensação de liberdade e auto-glamour.
Andava a passos firmes e rápidos, como se quisesse recuperar o tempo que perdera como crisálida, no piso úmido e escorregadio que as gotículas haviam preparado para ela. Andou sem rumo por horas. Nunca chegava. Não se cansava. Apenas seguia os seus instintos.
Buscava os lugares por onde passeava com seu cachorro, por onde conhecera o seu amor, por onde a sua antiga rotina residia. Concluiu que eram irreconhecíveis. Não mais faziam parte da sua nova vida. Viraram recordações de um passado que só poderia ser visto em imagem invertida, num espelho retrovisor.
E foi anoitecendo na cidade cinzenta.
E aquele sorriso que ensaiara no espelho, que dissera ao mundo que habitaria o seu rosto desde então, sem as marcas, sem as cicatrizes, foi-se desfazendo.
Não sabia o que procurava. Abandonara sua antiga vida de crisálida sem traçar os planos para a sua vida nova.
O frio abateu-se sobre ela. A chuva aumentava. Seus sapatos de salto alto não eram apropriados para aquela ocasião. O seu lindo vestido já não era mais anteparo para o frio da cidade sombria.
Podia ver seu hálito se converter em vapor enquanto ofegava. Sua determinação já não era a mesma. Seus passos já não podiam ser rápidos, sob pena de cair ao chão molhado. Seu amor não estava para cobri-la com seu casaco. E ainda estava longe de casa.
Lembrou-se então da garrafa de vinho; do calor que ela lhe trouxera na noite anterior. E que outra garrafa de vinho como aquela, ainda habitava a sua modesta adega. Era tudo que ela queria agora. Finalmente ela tinha um objetivo: rebater o frio, degustando o bouquet daquele vinho. Isso lhe dava forças para superar a dor que já sentia nos tornozelos. Seus passos, mesmo mais cuidadosos, se aceleravam novamente. Fora tomada por um ímpeto que já havia esquecido. Só pensava em sua cama, seus lençóis de cetim, e sobretudo, na sua garrafa de vinho.
Virava uma esquina, e outra e mais uma. Os quarteirões se sucediam. Longos e largos. Mas não se importava; aquelas coisas, que naquele momento frio, se tornaram seu objeto de desejo a esperavam pacientes.
A noite caíra. Tinha dificuldade em ver o rosto das pessoas, que agasalhadas, a miravam como se ela não pertencesse a este planeta. Mas nada disso importava mais. Só o vinho, o banho quente, os lençóis, a cama macia...
Dizem que os cavalos, depois de um árduo dia de trabalho no campo, ao enxergarem de muito longe as suas baias em terreno plano, disparam incontroláveis na direção delas. É preferível soltar as rédeas, por que elas já não fazem mais efeito. Sabem que lá está a água de que precisam, o alimento para repor as suas energias, o feno que lhes proporciona o descanso merecido.
Assim era ela ao vislumbrar de longe, na penumbra da cidade escura, a porta por onde saíra. Ainda mais acelerada. Passos e coração.
Finalmente chegou. Ensopada. Quase congelada. Seu vestido já não era mais tão bonito. Seu sorriso já não existia. E à beira da escada que descera cantarolando, tomou às mãos os sapatos molhados e enlameados.
Subiu descalça as escadas. Com não menos determinação que quando as descera. Não teve forças para cantarolar enquanto subia.
Abriu a porta e correu até a adega. O vinho estava lá. Anunciava outra noite solitária, com a cabeça pesada ao levantar. Mesmo assim sorriu e rumou para o chuveiro. Enquanto o vapor novamente embaçava o espelho concluiu: estava de volta à vida de crisálida.
Ainda não era chegada a hora de ser borboleta.
Mas apesar de tudo isso, há que se considerar: foi uma bela tentativa! Ah, se foi!
Quase nunca por: Oscar Luiz