Camadas Mais Frias do Ar...
Conheciam-na em todos os matizes. Tinham visto como ela fazia o céu parecer quebradiço e cindido ou encapado de um azul muito escuro, quase preto. Sabiam como era a luz sob nuvens de espuma, como caía em viés sobre o fjell, como encontrava os rochedos lá em cima na floresta e na densa vegetação rasteira. Sabiam como era fugidia e ilusória. Ainda há pouco iluminava de turquesa o lago até o fundo, já no momento seguinte jazia ali fosca e impenetrável como asfalto. Tinham visto como na chuva a luz fazia pinheiros e amoreiras silvestres parecerem opacos, viram como às quatro da madrugada ela pairava sobre ruas varridas pelo cascalho e ao meio-dia sobre a grama aparada de jardins suecos. Conheciam-na no amarelo flamejante de calor, no brilho esverdeado da noite, podiam dizer qual era sua aparência sobre o telhado do galpão de ferramentas em dias encobertos.
Sabiam como rostos se transformam quando a luz recai penetrante sobre eles. Quem saía das barracas pela manhã e se dirigia para o lavatório, precisava atravessar o gramado que tinham trazido da floresta. Lá, os rostos se tornavam firmes.
Transmutavam do cinza leitoso, a cor da noite, para um tom bronzeado acre, facetado. Isto era sabido. Viam-no todas as manhãs.
E mais tarde, quando havia apenas poucas nuvens no céu, este bronzeado adquiria uma nitidez como só os rostos aqui neste promontório possuíam. Era brutal quando o sol brilhava.
Ninguém falava sobre a luz.
Havia outras coisas a conversar. Era preciso cuidar das paredes da barraca que haviam se rasgado na tempestade, agora largadas sobre a grama como peles esfoladas e tinham que ser remendadas. Tinham que providenciar reposição, gêneros alimentícios que vinham todos os sábados de Berlim, telefonavam com freqüência. Repunham o estoque com encomendas de batatas e café, carvão para a grelha e salsichas e arroz, sem nunca se esquecer das frutas, pois as frutas na Suécia estavam especialmente caras neste verão. Enviavam aos lagos em seqüência prédeterminada os grupos juvenis que iam chegando, primeiro ao pequeno Store Le e depois ao Foxen, açoitado pelos ventos, distribuíam cópias de livros de receitas aos monitores dos grupos para que soubessem quantas latas de feijão seriam utilizadas à noite na frigideira de chilli. Na barraca da cozinha ficavam armazenados os tonéis de alimentos para uma semana.
Explicavam como cozinhar no fogo ao ar livre e lá embaixo, no embarcadouro, distribuíam os barcos. Eram canoas estreitas para duas pessoas, de metal leve cinza claro. O toca cds funcionava o dia inteiro.

(...)
Kältere Schichten der Luft
S. Fischer Verlag
Frankfurt a.M. 2007
ISBN 978-3-10-075121-8
pp. 7-8
















3 comentário(s):
Querido Óscar,
Em dia de aniversário, HOJE tenho uma surpresa para os amigos.
Espero por ti.
Um abração
Surpreendente!
Muito bonito, começando a ler pensei que fosse a récita de um artista explicando como ele vê o efeito da luz em várias situações. E de repente, tudo se tornou bem "terra a terra", com as tarefas ligadas ao cotidiano para quem vive "sem raízes", em contato com a natureza.
Muito bonito!
Abraço.
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